No último sábado, dia 29 de março, a Cia. Grutta Teatral estreou o espetáculo “Boca de Ouro”, no Teatro Brigitte Blair, em Copacabana. A obra do dramaturgo Nelson Rodrigues conta a história do temido e carismático Boca de Ouro, um bicheiro de Madureira que decide trocar todos os seus dentes por pivôs feitos de ouro puro. Uma das grandes ambições de Boca é ser enterrado em um caixão de ouro, e para isso ele atrai mulheres casadas com o objetivo de roubar suas alianças e derretê-las.
A montagem tem a direção assinada por Linn Falcão e, apesar da força de vontade da equipe, deixa a desejar em muitos aspectos. Falta aos atores interpretações grandiosas, que apresentem a real complexidade dos personagens rodrigueanos. Dentre os doze atores, a atriz Ana Amélia Rodrigues, que interpreta a personagem D. Guigui, merece um destaque. Ana é a que está mais a vontade no palco e consegue dar um tom cômico à personagem. A história é praticamente narrada por Guigui, que abandonou o marido e os filhos para viver um caso de amor com Boca. Ela é procurada pela imprensa para falar sobre o bicheiro, que foi encontrado morto. Num primeiro momento, antes de saber da morte, Guigui apresenta o malandro como um homem cruel e insensível, capaz de matar e cometer outras atrocidades. Ao saber que ele morreu, imediatamente muda de discurso e o descreve de maneira apaixonada e diz que ele é capaz de matar, mas apenas por uma célebre causa. Com esta mudança, fica claro ao espectador não só a crueldade daquela mulher, mas as inseguranças de quem foi abandonada pelo grande amor.
O excesso de transparência e nervosismo faz com que os pequenos erros existentes ao longo da apresentação fiquem evidentes. Este erro pode ser justificado pelo fato de o elenco não possuir uma conta-regragem que os auxilie nas trocas de roupa e figurino. Além disso, falta malandragem em Hugo Barrylari, que interpreta o bicheiro Boca de Ouro. Marcelo Spindola, no papel de Leleco, é o que mais se destaca no elenco masculino.
A diretora Linn Falcão é a idealizadora do projeto e participa do espetáculo, no papel da assassina Maria Luisa. Além de dirigir, Linn assina a maquiagem, o cenário, a trilha sonora e a direção musical. Se na trama de Nelson, Maria Luisa desempenha um papel importante, na montagem a atriz e diretora não apresenta uma interpretação à altura.
O figurino de Alicia Ferraz é simples e comum, mas está de acordo com a moda seguida nos anos 60. A trilha sonora inclui sucessos como o samba “Alvorada” de Cartola.
Vale ressaltar o esforço e a força de vontade do elenco. Mesmo sem grandes patrocinadores e uma publicidade eficaz, o grupo completa 10 anos neste ano. No currículo estão outras obras de Nelson Rodrigues como “A Mulher sem Pecado” e “O Beijo nos Asfalto”.
O espetáculo estreou nos palcos de São Paulo em 1960 e trazia o diretor polonês Ziembinski no papel de Boca de Ouro. A peça não agradou o público paulista, já que a tragédia era tipicamente carioca e trazia um estrangeiro no papel de malandro. A temporada não durou nem três semanas no atual Teatro Cacilda Becker. Em janeiro de 61, a obra reestreou, desta vez no Rio de Janeiro, com toda grandeza necessária. Em 1990. a história do malandro que nasceu em um banheiro de gafiera chegou às telonas. Com direção de Walter Avancini, o filme traz Hugo Carvana, Cláudia Raia, Luma de Oliveira, Osmar Prado, Grande Otelo e Tarcísio Meira no papel de Boca de Ouro.
A peça “Boca de Ouro”, com direção de Linn Falcão, está em cartaz no Teatro Brigitte Blair, em Copacabana, todo sábado às 21h e domingos às 20h30m até o dia 25 de maio.
